Onde o mar chega a mesa com histórias
MERCADO REDONDO: ONDE A HISTÓRIA DE ANGRA ENCONTROU O MAR
Antes de ser Mercado Redondo, aquele lugar era conhecido como Largo da Banca. Antes de existirem paredes, telhados e balcões, havia canoas, pescadores e o movimento de uma cidade que tinha no mar um dos seus principais caminhos de chegada, trabalho e sobrevivência.
Foi ali, praticamente à beira-mar, que os pescadores costumavam encostar suas embarcações e comercializar o pescado que chegava fresco das águas da baía. O peixe saía das canoas e encontrava compradores nas bancas improvisadas, abastecendo moradores, comerciantes e os armazéns que movimentavam o cotidiano do antigo Centro de Angra dos Reis.
Em 1914, diante da importância dessa atividade para a economia local, o poder público decidiu dar uma estrutura permanente àquele comércio. O projeto foi confiado ao capitão-engenheiro Rosalvo Mariano da Silva, que concebeu uma construção destinada a abrigar e organizar a comercialização do pescado. Nascia o Mercado Municipal, que o carinho e a memória popular consagraram como Mercado Redondo.
Naquela Angra de outros tempos, o mercado integrava um conjunto urbano de grande importância. Ao seu redor estavam armazéns, sobrados comerciais e estabelecimentos que abasteciam a população. A proximidade com a antiga Casa da Câmara e com o Paço Municipal revelava uma característica da cidade: a vida administrativa, o comércio e as atividades ligadas ao mar conviviam praticamente no mesmo espaço. A Casa Larangeiras, que também funcionou como armazém, é uma testemunha dessa época em que os negócios e a circulação de mercadorias davam ritmo às ruas do Centro.
Mas a paisagem mudou. Os aterros realizados para a implantação das estruturas portuárias avançaram sobre a antiga faixa marítima e alteraram a relação do mercado com a água. O que antes era um ponto de desembarque de canoas passou a ser uma praça, e o mar, que praticamente chegava à porta do edifício, ficou mais distante. A cidade se transformou, ganhou novas atividades econômicas e novos caminhos, mas o Mercado Redondo permaneceu como testemunha dessa história.
Reconhecido como patrimônio cultural pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC), com tombamento definitivo em 1988, o mercado representa muito mais do que uma construção centenária. É parte da memória do trabalho, da pesca artesanal, do comércio e da formação urbana de Angra dos Reis.
E há algo especialmente bonito nessa história: diferentemente de tantos edifícios antigos que sobreviveram apenas como lembranças de outros tempos, o Mercado Redondo continua cumprindo sua função. Ainda recebe pescadores, comercializa peixes e frutos do mar e mantém viva uma tradição que atravessou gerações.
Visitar o Mercado Redondo é conhecer uma Angra que talvez não esteja mais visível na paisagem, mas permanece presente na memória de seu povo. É imaginar as canoas chegando, os pescadores descarregando seus peixes, os comerciantes abrindo seus armazéns e o movimento de uma cidade que tinha no mar seu grande caminho.
Porque, em Angra dos Reis, conhecer o patrimônio é também compreender a vida que aconteceu dentro dele.
Hoje, o Mercado Redondo continua pulsando no ritmo do mar. É ali que o pescador caiçara chega com o fruto da sua lida, trazendo nas bancas o peixe fresco, o cheiro da maré e um pouco da história de cada saída para o mar.
Mais que um mercado, é um lugar de encontro, memória e tradição, onde a cultura caiçara permanece viva e o mar ainda chega à mesa de Angra dos Reis.
O mar mudou de lugar. A cidade se transformou. Mas o Mercado Redondo continua contando a história de uma Angra que nasceu, cresceu e aprendeu a viver olhando para o mar.
Angra dos Reis. Um destino onde cada lugar tem uma história e cada história merece ser conhecida.