Canhões de reis, histórias de Angra.
Os canhões da Pracinha do Porto guardam uma história muito maior do que aparentam. Eles são testemunhos materiais de um período em que Angra dos Reis fazia parte de uma rede estratégica de defesa da Baía da Ilha Grande.
Estudos sobre as fortificações de Angra identificam a presença de canhões ingleses, muitos deles de calibre 12, que integraram o sistema defensivo da cidade. Entre as principais estruturas estavam o Forte do Carmo, Forte do São Bernardino e o Forte de São Bento, construídos provavelmente no século XVIII.
Mas há um detalhe que torna essas peças especialmente fascinantes.
Em seus corpos aparecem marcas como “GR” — George Rex, “George, Rei” — e a tradicional Rosa Tudor, símbolo da monarquia inglesa. A rosa nasceu da união dos símbolos das casas de Lancaster e York, após a Guerra das Rosas, e tornou-se um dos mais importantes emblemas da Inglaterra.
Isso nos permite olhar para esses canhões não apenas como armas, mas como documentos de ferro. Eles foram fabricados sob a autoridade da Coroa britânica e, em algum momento de sua longa trajetória, atravessaram o Atlântico até chegar ao sistema de defesa português e, posteriormente, brasileiro.
A presença dessas peças em Angra revela também a importância estratégica da cidade. Durante o período colonial, a Baía da Ilha Grande era uma porta de entrada para o interior da colônia e uma importante rota marítima. Defender Angra significava proteger pessoas, embarcações, mercadorias e caminhos que conectavam o litoral ao território brasileiro.
Hoje, os canhões estão longe de seus antigos postos de combate. O que antes apontava para o mar, pronto para impedir a aproximação de uma embarcação inimiga, agora permanece silencioso, integrado à paisagem urbana da cidade.
E talvez essa seja a sua maior força turística: eles permitem tocar a história.
Ao passar pela Pracinha do Porto, o visitante pode estar diante de peças que carregam símbolos da monarquia britânica e que, posteriormente, participaram da defesa de uma das mais importantes baías do litoral brasileiro.
São canhões que já não disparam, contam histórias.
E basta observar suas marcas — a Rosa Tudor e o “George Rex” — para perceber que, antes de chegarem a Angra dos Reis, eles já haviam atravessado oceanos, reinos e séculos.
Angra dos Reis é assim: às vezes, a história está escondida à vista de todos.
Observação histórica: a documentação acadêmica localizada confirma que Angra possuiu canhões ingleses e que essas peças estiveram associadas às fortificações da cidade, mas não encontrei, nas fontes consultadas, documentação suficiente para afirmar individualmente qual dos três fortes — Carmo, São Bernardino ou São Bento — foi o posto original de cada canhão da Pracinha. Por isso, é mais seguro apresentar essa associação como parte do sistema defensivo de Angra, e não atribuir cada peça a uma fortaleza específica.